Carros elétricos: quem os vai comprar?

By on 12 Setembro, 2019

O Salão de Frankfurt não deixou de fervilhar de novidades, mesmo com muitas ausências importantes, tendo como destaque a eletrificação. Mas depois deste fervor fica a pergunta: quem vai comprar todos estes elétricos?

O estafado título do filme de Hollywood, “um elétrico chamado desejo” regressa para encimar os “power point” dos programas de formação para a força de vendas de cada construtor mundial. Isto porque a mobilidade elétrica deixou de ser uma ideia aventureira de Elon Musk, porque os construtores tradicionais foram encurralados pelos governos e, também, porque ninguém pode dormir à sombra dos lucros. Diz-se que “camarão que dorme a maré leva!”.

E a verdade é que foram precisos apenas dez anos para que a indústria automóvel mundial, nomeadamente, os maiores players do mercado, encarassem de forma séria e empenhada a mobilidade elétrica e apresentem agora modelos sérios e de qualidade e não apenas veículos que testem o mercado.

Mas essa é apenas uma parte da missão e quase todos a cumpriram com maior ou menor distinção. Agora, está na hora de arregaçar as mangas e vender a tecnologia criada, os modelos produzidos e a ideia da mobilidade elétrica. E aqui voltamos à sabedoria do povo para dizer que agora é que “a porca torce o rabo”! 

Uns dramatizaram a questão, como Herbert Diess, CEO da VW, que na apresentação do ID3 clamava, quase batendo no peito, que os governos abandonassem a produção de energia a carvão. Como está diferente a VW: do Dieselgate à liderança do movimento elétrico, veremos quanto tempo dura esta cega aposta nos veículos elétricos. Outros, como a Mercedes, gastaram “uma pipa de massa” para ter árvores de faia verdadeiras e ecrãs gigantes com peixinhos virtuais, para criar ambiente para a revelação do VIsion EQS, um carro impressionante, sem dúvida, que antecipa uma berlina de luxo elétrica.

A maioria tinha como mensagem a importância da defesa do ambiente e, claramente, deixava marcado a ferro quente a ideia “nós, os construtores, estamos do vosso lado”. Ou seja, nós estamos a fazer o melhor por si querido consumidor. E os departamentos de marketing trabalharam furiosamente nos últimos tempos para aplainar e colocar uma tumba por cima das ansiedades e profundas incertezas que a mobilidade elétrica gera. Porém, esse trabalho incansável e sem pausas não chega. Apesar de todas as campanhas – com a ajuda de muita imprensa que quer ser politicamente correta e manter as torneias da publicidade abertas – de todos os “louva a deus” que se encontra a cada esquina endeusando as capacidades dos veículos elétricos, das muitas associações ambientalistas que não passam de caixa de ressonância e aplicam, perfeitamente, o principio “faz aquilo que eu digo e não aquilo que eu faço”, a grande dúvida permanece: vender carros elétricos… a quem?!

É que as dúvidas que assaltam os consumidores – não faltam ai são estudos que o comprovam – são exatamente as mesmas do mercado quando a Nissan se atirou de cabeça para a piscina elétrica e a BMW investiu milhares de milhões de euros numa marca separada para lançar o i3. Carro que só deu prejuízo e ficou a quilómetros dos objetivos de vendas.

Talvez eu esteja a ver mal o filme, afinal sou apenas um jornalista, mas há um tremendo erro de julgamento da humanidade atual. As gerações diferentes de pessoas que compõem o planeta Terra continuam iguais e não querem pagar por tecnologia não comprovada e muito menos se essa tecnologia não lhes garante conforto. Sim, somos comodistas – vamos de casa ao café de carro, se pudermos colocar o carro dentro da praia era perfeito ou mesmo dentro da loja ou do restaurante seria o ideal – e desconfiados. O quê? Estar meia hora para recarregar a bateria quando quero ir por os pés de molho no Algarve? Não posso ir a mais de 120 km/h na autoestrada sob pena de nunca mais chegar à praia? A rede de carregadores lentos desespera qualquer um e ainda por cima a maioria está avariada?! 

“O próximo passo não tem nada a ver com os carros, porque esses acabaram por ser uma inevitabilidade. A grande novidade está na mobilidade acessível, ou seja, como e que conseguimos que a mobilidade elétrica funciona para o maior número de pessoas!” Palavras de Carlos Tavares, o CEO do PSA Group que é dos mais críticos deste tsunami elétrico que ameaça arrastar alguns construtores para o charco. 

Esta visão de Carlos Tavares é interessante, olhando aos factos. E quais são eles?

Alguns estudos feitos por entidades independentes dizem nos próximos cinco anos, teremos um excesso de produção de milhões de unidades de veículos elétricos que não terão comprador. Exagero?

Onde é que os veículos elétricos têm vingado? Em países que oferecem benefícios fiscais e incentivos muitíssimo generosos á compra de veículos elétricos. Logo que os Governos retiram esses incentivos… a queda nas vendas é brutal! O mercado chinês, o maior do mundo e onde os elétricos eram figuras de proa, assiste a uma depressão violenta com uma redução de 16% das vendas destes veículos. Porquê? Porque o Estados chinês reduziu sensivelmente os apoios e incentivos à compra.

Se estes dados não são suficientes, viajemos até ao Velho Continente. Na Dinamarca, paraíso dos veículos elétricos, as vendas despenharam-se de forma inacreditável assim que o governo começou a retirar os incentivos fiscais. 

Perante estes cenários negativos, os construtores, entre a espada e a parede, atiraram-se de forma suicida conta a espada. O que quer isto dizer? Reduziram preços e cortaram na sua margem de lucro. O grande problema das marcas é que os veículos elétricos, para já, não geram mais valia ou qualquer lucro. Antes pelo contrário! E uma vez mais, como diz o povo, “quanto mais se abaixam, mais o rabo se lhe vê” e reduzir preços é aumentar a pilha de prejuízos.

Claro está que os mais otimistas e defensores do ambiente, rasgam as vestes e apontam para as suas tabuinhas que mostram um aumento das vendas e uma quota de mercado de 2%, na Europa, de modelos elétricos e híbridos. Julgam-se Moisés a abrir o Mar Vermelho, não deixando de lembrar rácios de crescimento impressionantes… quando desligados do contexto.

Esta quota de mercado é uma pocinha face ao oceano de vendas no Velho Continente, mas lá estão, já, dezenas de modelos que se acotovelam para conquistar uma mão cheia de clientes. Dir-me-á que se é assim, não faz sentido tanto lançamento de elétricos e híbridos. Tem toda a razão, mas… e nestas coisas há sempre! um mas.

Os políticos são como os gatos, eriçam o pelo sempre que pressentem uma ameaça. O crescimento dos grupos ambientalistas e a ideia que o povo está mais sensível ás questões ambientais, fez eriçar o pelo dos governantes e não tardaram muito a esgadanhar leis e regulamentos que desaguaram em limites de emissões ridículos. Ora, se na questão das vendas dos elétricos havia a escolha entre a espada e a parede, desta feita a única possibilidade é saltar para o abismo e acreditar que a queda seja meiga. Ou seja, as marcas têm de construir veículos híbridos e elétricos para cumprir os limites e evitar pagar as multas absurdas sobre quem desrespeitar os limites. 

Por exemplo, a Mercedes tem em mãos um plano até 2022 para lançar 10 novos modelos elétricos que vão custar mais de 10 mil milhões de euros. Porquê? Porque tem uma gama tão alargada que não se pode dar ao luxo de pagar as multas por excesso de emissões. 

Uma vez mais os defensores do ambiente rasgam vestes cobrem-se de cinza e clamam “muito bem!” vendo a árvore e esquecendo a floresta. E então os barcos? E os aviões? E os camiões? E as vacas? Vamos voltar ao mundo ideal: acabamos com a internet, acabamos com as viagens de avião, passamos a comer vegetais e acabamos com os animais como as vacas, grandes produtores de CO2, passamos a andar todos nus e a pé.

Os massivos investimentos feitos até agora vão precisar de “muita paciência”, como diz Hans Dieter Poetsch, presidente da Volkswagen, para serem recuperados. Ele que aplicou esta frase quando interrogado sobre quando o ID3 iria dar dinheiro ao grupo. Vai ser mesmo preciso paciência de Jó para isso.

Os construtores vão fazendo “lobby” demonstrando aos governos que sem incentivos fortes, dificilmente será possível a perda significativa de dinheiro. Há necessidade, urgente, da União Europei criar um esquema de incentivos para a compra de veículos elétricos sob pena da industria poder colapsar. Como diz Carlos Tavares, CEO do PSA Group, “precisamos de um apoio muito forte, porque se ele não existir, dizer que temos excelentes carros elétricos não será suficiente para que as vendas acelrem!”

Quer isto dizer que estou contra a mobilidade elétrica? Claro que não! E reconheço que estão a ser dados passos certos. Os modelos que foram apresentados em Frankfurt já têm uma autonomia mais confortável que permite programar viagens de outra forma. Jm ID3 da VW com 330 km de autonomia já permite chegar ao Algarve sem recarregar ou com uma única paragem de meia hora. 

Começam a chegar os modelos de topo como o Taycan a custar mais de 180 mil euros e modelos intermédios para todos os gostos. O consórcio entre a Daimler, BMW, Ford, VW e Hyundai, denominado Ionity, está a fazer um trabalho intenso no Velho Continente, para ter uma rede de 400 carregadores rápidos que estará pronta até meio de 2020. E a ACEA, a associação europeia dos construtores já veio pedir aos governos que aumentem a rede de carregamento para lá dos 2,8 milhões de pontos até 2030. O que será um aumento de 20 vezes face ao que existia em 2018. 

José Manuel Costa

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