Fiat Chrysler Automobiles retira proposta de fusão com a Renault

By on 6 Junho, 2019

De uma forma abrupta e inesperada, a Fiat Chrysler Automobiles (FCA) retirou a proposta de fusão com a Renault, desistindo de criar, assim, o maior grupo europeu e o terceiro maior do mundo.

Tudo terá sido espoletado pelo facto dos responsáveis da Renault não terem conseguido chegar a uma decisão sobre a proposta feita pela FCA no dia 27 de maio passado. Segundo a própria Renault, “a administração não conseguiu tomar uma decisão devido ao pedido, expresso, dos representantes da posição acionista do Estado Francês na empresa, de adiarem uma decisão para uma reunião posterior.”

Para lá disso, segundo o Wall Street Journal, a FCA soube que a Nissan Motor Co. decidiu não apoiar o acordo de fusão. 

A verdade é que os dois representantes da Nissan no conselho de administração da Renault estiveram renitentes em oferecer o seu apoio ao negócio quando todos os outros membros se estavam a preparar para aceitar o acordo de fusão num valor superior a 30 mil milhões de euros. Esta oposição levantou, justificadas, dúvidas, na FCA sobre o compromisso futuro na preservação da Aliança com a nova empresa surgida da fusão entre a FCA e a Renault.

Num comunicado emitido de madrugada, a FCA reitera “que está firmemente convencida da lógica da proposta que tem sido amplamente apoiada desde que foi apresentada, tendo uma estrutura e termos que foram cuidadosamente equilibrados ara oferecer substanciais benefícios a todas as partes. No entanto, tornou-se claro que as condições políticas em França inviabilizam que esta proposta tenha sucesso.”

O Governo francês, um dos maiores acionistas da Renault, já tinha anunciado a sua oposição á fusão caso a Nissan não garantisse que a Aliança com a Renault não continuasse. Este pequeno detalhe, que tresanda a jogada política para aplacar os espíritos mais inflamados dos responsáveis da Nissan, levou ao adiamento da votação, o que deixou irritado John Elkann, levando-o a retirar a proposta.

Tudo isto se enquadra num esforço que a FCA estava a fazer para satisfazer todas as exigências dos franceses, nomeadamente, do executivo gaulês. Mas à boa maneira dos políticos, a gestão foi mandada pela janela e o que o Governo francês queria era ganhar tempo para que pudessem surgir outras propostas e, sobretudo, que a Nissan participasse no negócio antes que ele fosse concluído. Diziam os franceses que era necessário mais tempo para explicar o negócio aos japoneses e tranquilizá-los, tendo o Governo francês ficado, quem diria!, surpreso com a decisão da FCA.

O desfecho estava mais ou menos escrito nas estrelas, pois logo de seguida ás exigências do Governo gaulês, Hiroto Saikawa, CEO da Nissan, veio a terreiro dizer que se a fusão fosse feita como foi proposta, alteraria, significativamente, a estrutura da Renault e isso “exigiria uma revisão fundamental da relação existente entre a Nissan e a Renault.”

Afinal, do que é que estamos a falar?

Com 15% do capital da Renault, os políticos franceses olharam para esta proposta de forma política, ou seja, como uma oportunidade de ganhar votos. Para conseguir isso, queriam mais influência na nova empresa, garantias de emprego para todos os colaboradores, franceses, da Renault e melhores condições para os acionistas da Renault. Ou seja, o governo queria que a FCA fizesse aquilo que compete a Estado.

A decisão foi dura e significa uma valente derrota para John Elkann, na ocasião que se aproximou para sair da sombra, ainda forte, de Sergio Marchionne. Depois de ter estado em conversações com o PSA Group, Elkann decidiu seguir a via mais complicada, apostando num grupo significativamente detido pelo estado francês e com um apêndice chamado Aliança onde estão a Nissan e a Mitsubishi.

Mas Jean Dominique Semard, CEO da Renault, também sai chamuscado desta negociação, depois de um enorme esforço que fez para que a votação fosse afirmativa. Além do Estado francês, os sindicatos estavam preocupados com a manutenção dos postos de trabalho e a Nissan quer, a todo o custo, ser igual à Renault em termos de capital da empresa.

O irónico de tudo isto é que depois de muito esforço, as negociações com a Nissan estavam bem encaminhadas, quando o Governo francês fez o projeto borregar. A verdade é que tudo acabou e a FCA continua sem parceiro e a necessitar, muito, de um bom parceiro. Quanto à Renault e à Nissan, depois do papelão que fizeram nesta história, estão condenadas a se entender.

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