OPINIÃO – Os hodiernos Flautistas de Hamelin

By on 29 Novembro, 2019

O conto folclórico reescrito pelos irmãos Grimm narra um desastre fora do comum numa cidade alemã, uma invasão de ratos que dizimava os recursos e apoquentava a população. Chegado à cidade como um caçador de ratos, prometeu resolver a questão em troca de umas modas de ouro, explicando que os iria hipnotizar e levá-los para o rio onde se afogariam. Livres do tormento, imediatamente o povo da cidade deu o dito por não dito e inventando a ausência de provas do desaparecimento dos ratos, negou o pagamento. Insatisfeito, o homem regressou umas semanas depois, mas desta feita tocando a flauta e hipnotizando as crianças de Hamelin. Levou-as todas para fora da cidade, enfeitiçando-as e prendendo-as numa caverna onde desapareceram. Na cidade ficaram os ricos habitantes, celeiros cheios, mas uma cidade deserta, vazia e sem chama. Hamelin nunca mais foi a mesma e não há nenhum relato que mais alguma vez se tenha visto um rato ou uma criança na cidade.

Não estou aqui a tentar encontrar emprego como contador de histórias, mas este conto tem muitas semelhanças com o que está a acontecer com a indústria automóvel mundial. A cidade do automóvel está infestada de ratos (leia-se políticos) que percebendo pouco do que se fala, continuam a devorar recursos que não são seus imolando tudo no altar da crise climática.

Os governantes têm um instinto de sobrevivência apurado como os ratos e por isso mesmo, farejam à distância problemas ou ameaças aos seus lugares onde engordam opiparamente. Os temas fraturantes passaram a estar na ordem do dia e por isso, cedo ou tarde, a questão ecológica acabaria por eclodir como um ovo chocado pela mais zelosa galinha. A sociedade global e as redes sociais passaram a ter a mesma missão que, nos anos das ditaduras europeias, tinham as polícias políticas e as dos costumes: envergonhar quem pensasse de forma diferente e tocar a música intimidatória que colocasse todos aprumados rumo ao abismo.

Hoje, jovens com idade para estar na escola pensam ser estadistas, ameaçam e enriquecem num processo que, juram a pés juntos, se destina ao bem comum. Porém, servir-se do prato da miséria comum dos povos não lhe desperta interesse suficiente, antes repulsa, para que o “grand finale” que nos condenará a todos ao juízo final, seja apocalíptico.

Vemos hoje crianças e jovens com o discurso alinhado com os populistas, que querem nos transformar naquilo que não somos, mas que eles entendem que devemos ser. Comer carne? Fustigue-se com 50 verdascadas nos lombos! Gosta de viajar? Utiliza automóvel sem ser elétrico? Acabe-se com esse energúmeno à verdascada!!

Rasgai as vestes e clamai pelo planeta, pois não há Planeta B, não há salvação e estamos todos a encaminharmo-nos para o abismo da morte, da miséria, da desgraça do apocalipse!

E nesta caminhada justiceira que se diferencia de uma ditadura pela multiplicidade dos pequenos e maiores ditadores que se vão arregimentando, tudo é possível desde que sacrificado no altar do bem maior que é a proteção do planeta e dos seus indígenas. 

E se aparecerem uns autóctones que, por desgraça, não desejem misturar na mesma saladeira pénis e vaginas, não gostem de homossexualidade ou que desejem se lambuzar num belo bife de vaca do acém ou do lombo, vá de zurzir neles nas redes sociais usando a bela característica do anonimato, chamando-lhes tudo e o contrário enquanto não ganham músculo para chegarem ao banquete legislativo.

Perante este cenário, hoje, quem gosta de comer, quem gosta de se divertir e quem gosta de automóveis, tem os dias contados e terá, sempre, um dedo em riste da rede social que estiver à mão. E muitos que são como ovelhas, inocentes e burras que sem pastor não saem do mesmo sítio, berrando por ajuda, seguem esses lideres que com fato de ovelha, escondem a mão que rouba, que estraga que arruína em nome do seu deus… o seu ventre.

É neste mar revolto que a indústria automóvel tem vindo a navegar, andando há muito tempo a meter água por todos os lados. Olhada como parasita, tem dado mundos ao mundo e a verdade é que todos aqueles que defendem o fim dos automóveis, não dispensam o seu bólide para ir ao Centro Comercial ou fazer-se ver em espetáculos feitos para angariar fundos para a causa.

Claro que alguns já rasgaram as vestes e me acusaram de ser um bastado ao serviço dos lóbis do automóvel, um ser sem coração que não verte uma lágrima pelos ursos polares ameaçados ou pela coitadinha da menina que navega em barcos que custam mais do que o dinheiro todo que ganhei na minha vida de jornalista, destila ódio, temperado pela doença. Podem me chamar o que quiserem até porque já estou calejado. Já o que estão a fazer ao tecido industrial automóvel é de uma idiotice que só consigo encontrar igual nos dislates de Donald Trump ou de Nicolas Maduro, líderes mundiais que, se calhar, são o contrapeso a esta saga da defesa do ambiente.

Como disse acima, os governantes têm uma capacidade de sobrevivência inaudita e perante os apertos que lhe fazem, reagem sempre com a ideia de “safar-se”. Quando estalou a crise entre Martin Winterkorn e Ferdinand Piech, pelejando pela liderança do porta aviões Volkswagen, o veterano austríaco perdeu o braço de ferro e poucos meses depois, percebeu-se que tinha sido um erro a VW deixar cair o veterano presidente: os americanos redescobriram, não a América, mas a aldrabice que os alemães (e não só!) andavam a fazer. Explodia o “Dieselgate” e estilhaços voaram em todas as direções atingindo tudo e todos até aos confins do Mundo. A partir dai, nunca mais o universo automóvel foi o mesmo.

Numa fuga para diante, a Volkswagen lambeu as feridas, foi á carteira buscar dinheiro, limpou os cacos e renasceu como marca responsável que iria salvar o planeta com um projeto de automóveis elétrico e que se conduziam sozinhos. Num só tacada, enfiaram a bola do Dieselgate, a bola da defesa do ambiente e quase enfiavam a bola 8 e ganhavam o jogo. 

Os governantes, chocados com o sucedido, despertaram para a necessidade de proteger o ambiente – lá está, farejaram o perigo nas urnas – e qual vaca parideira, despejaram leis e regulamentos, sempre para atingir quem estava mais á mão. Faz lembrar os tempos de escola… os mais pequenos e indefesos é quem apanhava com as estaladas daqueles que não tendo arcaboiço para bater nos mais velhos, descarregavam nos pequenos. E quem estava mais á mão? O automóvel, claro!

Não me interpretem mal: claro que temos de defender o ambiente. Claro que temos de salvar os ursos polares e claro que temos todos de evitar usar plástico para tudo e mais alguma coisa e que tem os de reciclar o lixo, enfim, tudo isso é verdade.

Porém, diabolizar uma tecnologia centenária só porque emite poluentes? Então que dizer dos aviões? Dos barcos? Das fábricas?

Deixo aqui uma sugestão aos mais novos que vêm para a rua dizer coisas que nem percebem o que estão a dizer: que tal deixarem de usar os smartphones e irem até à cabina da rua para fazer uma chamada em troco de umas moedas? Que tal deixarem de usar a roupinha da moda e de marca e passarem a andar vestidos com folhas de palmeira? Que tal deixarem de comer as batatas fritas, os “cheetos” e de beber refrigerantes e passarem a comer milho e água do rio? Que tal deixarem em caso o carro que o papa ofereceu e pegarem num arco e numa flecha e irem caçar o almoço e o jantar? Que tal deixarem de ir ao bar ouvir música e beber uns shots e passarem a estar ao luar a ouvir os passarinhos e os bichos do mato? Finalmente, que tal irem a pé de casa para a escola/universidade, esteja a 1 ou a 50 km de casa? Pois é… de repente  mundo ficou menos interessante.

A luta absurda contra os diesel levou os consumidores a virarem-se para os modelos a gasolina e, claro, as emissões de CO2 aumentaram. Não fez diferença nos astutos políticos. Mais umas leis e obrigação de filtro de particular nos motores a gasolina e, lavemos as mãos, está feito. Não ficou resolvido, portanto qual a atitude sensata a tomar? Reunir com quem sabe da poda e perceber o que se poderia fazer. Mas isso seria demasiado sensato e daria a ideia, perfeitamente errada, que os políticos são uns néscios. Como é evidente, para dar a imagem que estamos a fazer a coisa certa e para entalar esses arruaceiros da industria automóvel que só sabe pedir subsídios, vamos zurzir-lhes e limitar as emissões de CO2 para limites absurdamente baixos. E assim, a sangue frio!

Com estas regras draconianas, os políticos desferiram violento golpe na industria automóvel e depois atirou-a para uma banheira cheia de álcool, chamada mobilidade elétrica. Onde estão todos a agonizar com hemorragias de capital nunca vistas, que não podem ser saradas porque não têm forças para sair desta banheira de álcool onde os políticos os meteram. Uns sofrem menos que outros, mas todos têm estado a agonizar, sendo que alguns já estão moribundos e a caminho de uma morte anunciada ou então serem devorados pelos mais poderoso que sangram, mas não se abatem.

Está o setor a precisar de um Flautista que hipnotize os políticos e os deixe ver a razão. E ele está a caminho na forma dos muitos rostos que vão começar a perder o seu trabalho e a carregar de forma violenta os orçamentos dos Governos. Um flautista que começa a tocar a música hipnotizadora que os tais ratos, perdão, governantes, detestam e que lhes pode arrancar o poder das mãos. 

Esta semana, três construtores alemães anunciaram violentos cortes na força de trabalho através de rescisões amigáveis e pré-reformas. O número já vai perto dos 20 mil sacrificados, mas não ficará por aqui a despesa. Os construtores tentam estrebuchar na banheira de álcool para onde foram atirados depois de esfaqueados e já anunciaram redução das gamas, modelos elétricos que precisam de menos mão de obra e redução de produção por falta de procura, e por isso o Diabo está de lápis na mão e vai desenhando uma catástrofe social.

Reduzir a massa salarial é sempre a maneira mais simples de recuperar capital e por isso não se espantem de ler nos próximos dias, mais construtores a anunciarem cortes de postos de trabalho. E depois, será o efeito dominó: a quebra da produção e a redução das gamas, é estilhaço que se vai alojar no coração das empresas que vivem á custa da produção automóvel. E mais uns milhares de colaboradores vão parar ao meio da rua, exigindo a rede de apoio social.

Veremos se o Flautista leva os ratos, perdão, governantes para o rio. Sinceramente, não me parece, mas quando chegar a nova recessão que está a caminho a galope, se os Governantes nada fizerem, acreditem que os ratos sobrevivem, mas a industria automóvel pode ser levada cativa e encerrada numa gruta de onde nunca mais vai conseguir sair. Ninguém tenha dúvidas que é preciso salvar o ambiente, mas não se vai salvar absolutamente nada com esta guerra ao automóvel e estes limites perfeitamente estapafúrdios de emissões de CO2. Deveria ter sido feita uma calendarização a cinco ou dez anos para ir reduzindo as emissões até limites razoáveis. A mobilidade elétrica é um disparate como está a ser encarada e tratada. É excelente em casco urbano, excelente para a pequena distribuição e para quem pode ter mais que um carro, usando o elétrico nas deslocações pendulares e o outro nas viagens ou deslocações mais longas. É um disparate em modelos familiares e desportivos. A mobilidade elétrica é interessante para a grande distribuição, com os camiões a poderem alberga uma bateria de muito generosa capacidade que os leve a fazer mais de 1500 quilómetros. A mobilidade elétrica fará sentido quando houver postos de recarga para todos, sejam do tipo rápido ou não, levando menos de 10 minutos para recarregar a bateria. Enfim, a mobilidade elétrica fará sentido, quando a espinha do carro, a bateria, tiver preços mais acessíveis. A continuar assim, a mobilidade elétrica será um aborrecimento e as pessoas não vão aderir.

Como fica claro, há ainda muitos desafios, mas os Governos vão ter de rever a sua posição face aos limites de emissões que querem impor até meio do século. Se não o fizerem e aliviarem o sofrimento dos construtores, há de chegar o dia em que haverá milhões de veículos elétricos sem dono, os Governos a braços com uma crise social que os pode fazer cair da cadeira e um tecido industrial fragilizado e doente. A música está a tocar e os ratos, perdão, políticos, estão a encaminhar-se para o abismo se não arrepiarem caminho.

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