Primeiro ensaio Mazda MX-30: testamos o elétrico da Mazda… dentro de um CX-30!

By on 3 Dezembro, 2019

Há uns anos entrevistei Jeff Guyton, na época o CEO da Mazda na Europa, que foi claro ao dizer-me que não acreditava nos veículos elétricos e que, dificilmente, fariam um carro desses. Mas perante a minha incredulidade, o americano que regressou ao seu país e comanda a Mazda nos Estados Unidos da América, disse-me “a não ser que sejamos obrigados. Mas nessa altura, garanto-lhe que faremos diferente dos outros!”

Esta frase não saiu na entrevista, pois Jeff Guyton não quis chocar ninguém numa altura em que a Mazda precisava de carinho não de bofetadas.

As palavras deste americano nunca me soaram tão certas como ontem, quando conduzi o MX-30 montado numa carroçaria do CX-30: a Mazda não acredita na mobilidade elétrica como solução para tudo, mas os limites europeus para as emissões de CO2 e a nova moda da proteção do ambiente, para a qual todos acordaram a meio do pesadelo, a isso obriga.

A Mazda foi resistindo, resistindo e coloca à disposição do mercado motores e transmissões cada vez mais sofisticados, até que surgiu o Skyactiv X, um motor a gasolina que pensa ser a gasóleo e que é um avanço tecnológico imenso. Este motor é uma obra prima de engenharia e é tremendamente eficaz. E a casa japonesa continua a investir no desenvolvimento dos motores de combustão interna que ainda estão longe da sua máxima capacidade.

Porém, as regras europeias e a pressão feita mundialmente, inevitavelmente, quebrou a resistência da Mazda e no Salão de Tóquio tive o privilégio de ver ao vivo o novo MX-30 e falar com o responsável pelo estilo, disruptivo!, do modelo elétrico.

A Mazda deu-me o privilégio, depois de ver o carro lá longe, de o ensaiar ao longo de uma mão cheia de quilómetros, nas estradas da Serra de Sintra. Curiosamente, o carro continua a não ser ensaiado com a carroçaria final – que já está definida – mas debaixo do belo manto do CX-30. Pintado de negro fosco, sem sistema de info entretenimento, painel de instrumentos totalmente funcional, ajudas á condução ou até airbags, o MX/CX-30 cumpriu o teste sem o mínimo queixume. A seguir, ficam as minhas impressões sobre o carro que lá para setembro poderá compra em Portugal.

MX-30: naturalmente, um SUV

O novo modelo é um SUV compacto com as dimensões semelhantes às do CX-30, tendo a plataforma recebido inúmeras alterações, não só para adotar as portas de abertura antagónica, mas para acolher o berço em aço aparafusado ao chassis por 20 porcas. Não foi preciso um berço enorme, pois a Mazda utiliza uma pequena bateria de 35,5 kWh que autoriza uma autonomia de 240 km. Não comece já a insultar os homens da Mazda. Calma!

A Mazda, em colaboração com uma Universidade japonesa, levou a cabo um estudo profundo e detalhado sobre a utilização quotidiana do automóvel e da quantidade de CO2 libertada pelos carros elétricos. Contas feitas ao estudo – tenho a promessa da Mazda que me arranjará o estudo completo – os cientistas da referida universidade descobriram que uma bateria de 35,5 kWh, produz menos emissões de CO2 ao longo do seu ciclo de vida (160 mil quilómetros para uma capacidade de 75% de carga) que um Mazda 3 com motor a gasolina e que, espante-se, uma bateria de 95 kWh igual à usada pelos Tesla e pelo Audi e-tron, por exemplo.

Joachim Kunz, engenheiro da Mazda Europe e que está envolvido no projeto MX-30, disse-me que “não temos de ficar reféns da capacidade da bateria e muito menos da autonomia. Será que é preciso tanta autonomia? Não é melhor reduzir o tamanho da bateria e reduzir, drasticamente, a emissão de CO2? Diga-me lá, para ir ás compras, levar os miúdos ao colégio ou deslocar-se para o trabalho, 240 km não são suficientes?” Fui forçado a concordar, mas lembrei-lhe que a maior parte das pessoas tem esse bloqueio psicológico: a falta de bateria para chegar a casa. “Tem toda a razão, mas as vantagens que encontrámos com esta bateria deste tamanho, superam claramente esse constrangimento.” Não entende que um carro elétrico que rapidamente fica com pouco mais de 150 km de autonomia será uma dor de cabeça? Sorrindo e encolhendo os ombros, o enorme engenheiro alemão deixou escapar um “veremos”.

Como é o MX-30?

O melhor elogio que posso fazer à Mazda é que nos poucos quilómetros que fiz, nunca o MX-30 me pareceu um carro elétrico! Confesso que cheguei a desconfiar que me tinham metido numa brincadeira qualquer. Não sei se já conduziu automóveis elétricos, mas todos conhecem as características pelos ensaios que vão lendo aqui no AUTOMAIS: binário instantâneo, silêncio quase absoluto e a possibilidade de conduzir apenas com o acelerador com a desacelerar forte devido ao sistema de regeneração de energia.

Ora, o MX-30 não tem nada disso! Absolutamente nada! Apesar do carro não ser um MX-30, o comando da caixa estava no mesmo local onde estará no carro definitivo e os pedais também são os mesmos. Ora, o pedal do acelerador não tem nada a ver com um carro elétrico: a progressividade da atuação do pedal é impressionante e nada fica a dever a um carro a gasolina ou gasóleo. Quer isto dizer que não arrancamos de tal forma lentos que temos a tendência para carregar mais forte o acelerador e aí o binário surge todo de uma só vez e saímos disparados. No MX-30 tudo é feito com mais progressividade e quando desaceleramos, as órbitas não saem disparadas e quem vem atrás apanha o susto da sua vida. E sim, temos de usar o travão para abrandar e temos de usar o travão quando abusamos na velocidade de entrada em curva.

“Ainda bem que sentiu isso! É que é isso mesmo que pretendemos, ter um carro elétrico que se comporto como qualquer outro carro. Enfim, um Mazda!” Palavras de Joachim Kunz.

O MX-30 tem um motor elétrico com singelos 143 CV e um binário de 264 Nm, tendo o carro uma velocidade máxima de 140 km/h. Pode parecer idiota uma velocidade tão baixa, mas a Mazda andou com o carro em vários locais, incluindo as auto estradas alemãs, e parece que todos ficaram satisfeitos. Não sabendo, os MX-30 de testes estavam limitados a 120 km/h e na reunião que tivemos com os engenheiros depois dos ensaios, referi que tinha tocado os 120 km/h (não sei se o velocímetro estava certo, possivelmente não) e sentido o motor a perder impulso. 

Logo Joachim Kunz se apressou a dizer que “os carros estão limitados a 120 km/h e dai essa sensação de quebra, que também se verificará no modelo final quando chegar aos 140 km/h. Mas até lá há sempre força!” concluiu entre risos. A verdade é que para manter o movimento, não é preciso exagerar na carga no acelerador, pois o motor elétrico do MX-30 mostra-se fácil de dosear. Realmente, até parece um carro normal!

Como disse acima, a desaceleração não tem nada a ver com o habitual num carro elétrico e no MX.30 não há e-pedal. Ou seja, terá de usar mesmo o travão. É verdade que quando desacelera, há uma pequena dose de regeneração de energia, mas a sensação é a mesma que temos num carro a gasóleo, ou seja, a desaceleração não é abrupta. É sempre o travão que se encarrega de fornecer a maior regeneração de energia e, na verdade, a eficácia é a mesma do e-pedal, sendo muito mais lógica a utilização. Ou seja, a Mazda não acena com o Jinba Ittai (integração do cavaleiro com o cavalo) como mera ferramenta de propaganda. É realmente uma filosofia que coloca no centro do desenvolvimento o bem estar do ser humano na interação com a máquina. Seja como for, foi-me garantido que o caro terá patilhas no volante para incrementar a regeneração e que não haverá modos de condução. 

Mas o mais espetacular foi o som que fui escutando enquanto conduzia o MX-30. Ao invés de manter um silêncio sepulcral entrecortado pelo “whiiiiii” do motor elétrico ou os “woimmmwiommm” de outros modelos, a Mazda deu ao MX-30 barulho, artificial é verdade, que reage á aceleração. E qual é a base do som? Um motor de combustão interna! Genial! A Mazda teve o cuidado de gerar o ruído que não é perturbador e oferece a nítida sensação que estamos ao volante de outro carro.

Claro que perguntei se o ruído pode, ou não, ser desligado. “Porque pergunta isso?” olhou para mim espantado Joachim Kunz. Retorqui que há pessoas que já estão habituadas e gostam do silêncio, não dos inocentes, mas dos elétricos. “Estamos a pensar em colocar um botão de desativação, mas entendemos que esta será uma característica muito interessante.” Acredito que sim e para quem nunca teve um carro elétrico, será reconfortante. Para os outros, será um aborrecimento, mas acredito que a Mazda vai colocar um botãozinho que desliga o barulho do motor.

Comportamento excelente

O MX-30 só chega ao mercado em setembro de 2020, por isso há ainda algumas coisas a refinar na regeneração de energia – para mim o resto está ótimo – e mais algumas coisas. Onde os homens da Mazda escusam de mexer, é no comportamento.

Como referi acima, a plataforma é a mesma que serve de base ao 3 e ao CX-30, mas foi bastante modificada e surge mais rígida devido aos anéis estruturais que foram acrescentados para sua segurança e para oferecer um comportamento mais eficaz. A verdade é que apesar de perder o pilar B devido ás portas, o MX-30 será, diz a Mazda, mais rígido que o CX-30.

As suspensões receberam atualizações de molas e amortecedores – quais, não quiseram divulgar – ligações ao chassis e afinações gerais, não só para lidar com o peso, mas oferecer uma maior agilidade na mudança de direção. O MX-30 está equipado com o sistema de vectorização de binário que, com um motor elétrico, permite um controlo direto do binário impossível de fazer com um motor de combustão interna. Esse pequeno controlo do binário, permite estabilizar e agilizar o comportamento do carro.

O ensaio que fiz ao MX-30 travestido de CX-30, mostrou exatamente isso. Sem ajudas á condução, atirei o carro algumas vezes para as curvas da Serra de Sintra e a frente esteve sempre muito bem amarrada ao solo e á trajetória desenhada pelo volante com grande capacidade para mudar de direção e uma traseira que escorrega apenas o justamente necessário. E acredito que com o ESP ligado, nem isso suceda.

A verdade é que ajudado pelo baixo centro de gravidade, o MX-30 curva de forma admirável e com inteira segurança.

Veredicto

Claro que estamos longe do carro definitivo, mas tenho de dar os parabéns aos homens da Mazda. Têm feito carros admiráveis, de grande qualidade e agora que foram forçados a ter modelos elétricos, a Mazda seguiu o seu caminho e graças á leveza da bateria mais pequena, à qualidade do chassis Skyactiv revisto e reforçado para esta experiência elétrica e das qualidades de comportamento do chassis, fez um carro que, como já disse, não se parece nada com um carro elétrico. E estou com muita curiosidade para ver como será o carro com o motor rotativo a servir de extensor de autonomia. Acredito que o MX-30 passe a ser um caso de sucesso, porque se numa primeira análise o carro não parecia muito apelativo, hoje estou muito mais agradado e cada vez mais me parece que a Mazda fez bem em produzir um carro elétrico que se parece, muito, em termos de estilo e de utilização, com um Mazda convencional. Ainda falta muito para colocar as mãos no MX-30 definitivo, mas por esta amostra, nota muito positiva para o trabalho feito.

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