Fiat Chrysler Automobiles e PSA já ratificaram o acordo de fusão

By on 18 Dezembro, 2019

Está feito! O acordo que vale mais de 50 mil milhões de euros acaba de ser assinado por Carlos Tavares (PSA) e Mike Manley (FCA) e abre caminho para o quarto maior grupo mundial.

O acordo para a fusão está assinado e nos próximos 12 a 15 meses nascerá o quarto maior grupo mundial, conforme o comunicado emitido pela PSA e pela FCA (que pode ler clicando aqui).

A PSA e a Fiat Chrysler Automobiles (FCA) vão formar uma nova empresa que terá 11 elementos no conselho de administração, com cinco membros nomeados pela PSA e cinco membros nomeados pela PSA, onde vão ter assento representantes dos sindicatos de ambas as empresas. O 11º elemento é Carlos Tavares, que será o CEO do novo grupo. Como parte do acordo, nenhum acionista teria o poder de exercer mais de 30% dos votos expressos nas assembleias de acionistas.

Carlos Tavares, CEO da PSA e futuro CEO do novo grupo, afirmou que esta fusão vai colocar a PSA e a FCA numa posição mais forte para enfrentar os desafios que a industria está a enfrentar. “Os desafios à nossa industria são, realmente, muito, muito significativos, com as exigências ambientais, a condução autónoma, conectividade e todos os tópicos atuais que consomem significativos recursos, capacidades e conhecimentos.” Já Mike Manley, CEO da FCA (e ainda com futuro desconhecido), referiu que o facto das duas empresas terem saído com sucesso de tempos difíceis , significa que todos têm a noção que “as dificuldades devem ser encaradas como oportunidades”.

Recordamos que a fusão da PSA com a FCA, sem o fecho de nenhuma fábrica, representará uma poupança anual de 3,7 mil milhões de euros. A partilha de tecnologia, produtos e plataformas, renderá cerca de 40% desse valor, sendo o resto apurado no departamento de compras (mais 40% graças ao melhor alinhamento de preços e à escala do novo grupo) e nas áreas do marketing, informática, administrativa e logística (20%).

Ainda não há um nome para o novo grupo que vai nascer desta fusão, mas prevê-se que nos próximos 12 a 15 meses, tudo fique pronto e vejamos o nascimento de um colosso. Falta, agora, os acordos dos acionistas de ambos os grupos, decisão essa que será tomada em assembleias extraordinários do capital representado na FCA e na PSA, bem como a aprovação dos organismos estatais de cada país (França, Itália e EUA) e da União Europeia, sobre concorrência. 

Ainda antes de concretizar a fusão, que dará origem a uma empresa detida a 50% pela PSA e 50% pela FCA, a chinesa Dongfeng Motor Group vai reduzir a sua posição acionista na PSA de 12,2 por cento, ao vender 30,7 milhões de ações, avaliadas em 679 milhões de euros, ao preço de mercado. Isto vai acontecer já, pois a participação da empresa chinesa atraiu a atenção dos reguladores norte americanos da administração Trump. Uma larga percentagem de capital nas mãos dos chineses poderia levantar problemas e complicar a aprovação das autoridades norte americanas para esta fusão. Como referiu Carlos Tavares, “esta é a forma de apoiar esta fusão e ter a certeza que não teremos obstáculos inesperados pelo caminho.”

O CEO da PSA sabe bem que poderia existir essa situação, pois Larry Kudlow, consultor económico da administração Trump, já tinha avisado que havia o interesse em rever todo o acordo de fusão devido à presença forte da Dongfeng no capital da PSA. Com esta venda, essa nuvem é afastada.

Por outro lado, a General Motors sentiu-se ameaçada com esta fusão – a Chrysler está dentro do novo colosso mundial – e decidiu atirar para cima da mesa um processo judicial contra a FCA, alegadamente, por interferência nas negociações com os sindicatos. Mas foi uma tentativa sem resultados práticos, pois o acordo seguiu em frente e segundo Mike Manley, é um processo sem mérito que a FCA espera se resolva rapidamente. Caso isso não suceda e a GM insista, a FCA vai-se defender “de forma vigorosa.”

Este acordo, onde a PSA surge como a compradora da FCA, vai oferecer a Carlos Tavares a muito desejada presença no mercado norte americano. Por outro lado, a FCA vai ganhar no que toca ao desenvolvimento de tecnologias de baixas emissões, onde está muito atrasada. Mesmo assim, nos primeiros anos, o novo grupo continuará dependente do congestionado mercado europeu e terá de fazer um enorme esforço para se posicionar melhor na China, pois tanto a PSA como a FCA fracassaram naquele que é o maior mercado mundial.

Como parte da fusão, a FCA terá acesso às plataformas mais modernas da PSA, podendo, assim, cumprir com as regras de emissões poluentes vigentes na Europa. Já a PSA, focada na Europa, beneficiará da tecnologia da FCA em plataformas de elevadas performances (como a Giorgio da Alfa Romeo) e absorverá os chorudos lucros das marcas Jeep e RAM nos EUA.

Carlos Tavares forjou a sua reputação sendo um fervoroso defensor dos custos contidos e preços mais altos de veículos que pela qualidade e desempenho, merecem a etiqueta de preço que exibem. Conseguiu lidar com todos os sindicatos e colocou a PSA a ganhar (muito) dinheiro, que agora é aplicado nesta fusão, e recuperou a Opel em menos de um ano. Agora, terá de se movimentar nos corredores políticos de França, Itália e Estados Unidos da América, onde as raízes patrióticas são fundas. Mas como referimos, ele já enfrentou outras batalhas duras, não será esta que o vai fazer ajoelhar. Claro que tudo ainda vai passar pelo escrutínio de todos os reguladores que, naturalmente, desconfiam da promessa feita de não fechar fábricas. A União Europeia está, já, a enfrentar um êxodo de trabalhadores dos maiores grupos alemães – prevê-se mais de 80 mil despedimentos em 2020 e quase 100 mil em toda a Europa – não querem ver mais um alargado grupo de pessoa a perder emprego, num grupo que terá mais de 400 mil colaboradores.

Antes do negócio ser concluído, a FCA vai entregar aos seus acionistas um prémio especial de 5,5 mil milhões de euros e devolverá aos acionistas o capital da Comau (lucrativa unidade de produção de robots para a industria) que fará um “spin off” do grupo FCA. Já a PSA vai fazer o “spin off” da Faurecia, entregando aos acionistas os 46% de capital que detém e que, a preços de mercado, valem 3,2 mil milhões de euros.

Contas feitas, o novo grupo terá uma produção de 8,7 milhões de unidades, ficando atrás do Grupo VW, da Toyota e da Aliança Renault Nissan Mitsubishi, tendo um valor de mercado de 50 mil milhões de euros, valor que supera, por exemplo, a Ford Motor Company. O volume de negócios combinado é de 170 mil milhões de euros.

Dentro deste novo grupo, viverão duas dinastias da industria automóvel mundial: a família Agnelli, representada pelo presidente da Fiat e futuro presidente do novo grupo, John Elkann, e a família Peugeot. 

Com Carlos Tavares ao leme, o novo grupo terá uma missão imediata: resolver os defeitos de ambos os grupos, criando um par de marcas Premium consistentes e, realmente, capazes de dar luta aos alemães e melhorando sobremaneira a posição ma China. E acreditamos todos que Carlos Tavares desejará “apanhar” a Aliança Renault Nissan Mitsubishi com valente aumento de produção e uma economia de escala agressiva que permita ao novo grupo libertar uma margem de lucro operacional ao nível dos japoneses da Toyota. Vai ser esse o grande desafio do português após a finalização da fusão entre a PSA e a FCA.

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