Opinião: pandemia de Covid.19 veio beneficiar ou prejudicar a mobilidade elétrica?

By on 3 Junho, 2020

Como referi no editorial do AUTO+ no jornal AUTOSPORT haverá um AC e um DC, ou seja, uma era antes do Covid e uma era depois do Covid, pelo que as opções de compra podem beneficiar ou prejudicar tendências.

A defesa do meio ambiente e a luta contras as alterações climáticas é um assunto fraturante que não te consenso e, menos ainda, uma solução única ou milagrosa. Claro que é preciso encarar a segunda com firmeza e soluções integras e capazes, mas a primeira não é feita com medidas avulsas e decisões de gabinete onde a maior ponderação é lamber o dedo e colocá-lo no ar para tentar adivinhar para que lado sopram as tendências que os mantenham no poder.

Foi assim que a União Europeia quis ser a campeã na defesa do ambiente atirando para cima da mesa medidas draconianas que deixaram os políticos ufanos com a dureza e inflexibilidade e com a certeza de que os eleitores os respaldavam.

E foi assim, também, que os construtores forram empurrados contra a parede dos investimentos pornográficos na mobilidade elétrica, pela espada da legislação europeia. Chegámos a uma situação em que há mais legislação que desejo, mais regras que vontade de comprar carros elétricos por parte dos consumidores.

A pandemia de Covid-19 é como o teste do algodão… não engana! A travagem a fundo da economia devido ao confinamento, imposto como forma de desacelerar a pandemia, assemelhou-se a uma bola de bowling que acertou em cheio nos pinos menos preparados e deixou a abanar os mais fortes.

Os primeiros, abalados pelos investimentos na mobilidade elétrica, na hibridização já estavam a ter dificuldade em se manter de pé, os segundos têm raízes mais sólidas, mas abanam por todo o lado perante quedas de vendas de 70, 80 ou 90 por cento.

Construtores há que têm milhares de milhões no banco, mas diz o povo com toda a razão “de onde se tira e não se põe, logo o monte acaba”, pelo que não havendo retoma, a rede de segurança abrirá buracos por todo o lado.

Infelizmente, há uma verdade a que ninguém pode escapar: o ambiente sofrerá sempre, seja nos tempos de vacas gordas, seja no tempo de vacas magras, pois nos primeiros a voracidade do crescimento económico atropela tudo, nos segundos, a preocupação e o pouco dinheiro disponível vai para tudo menos para o ambiente.

Aqui chegados, a questão impõe-se: afinal, a pandemia de Covid-19 veio beneficiar ou prejudicar a mobilidade elétrica?

Olhando assim de repente, prejudicará bastante. Porquê? Em primeiro lugar porque os consumidores não vão estar disponíveis para pagar muito mais para ter um carro elétrico, pois os tostões andam a ser contados e qualquer investimento tem de ser pensado, meditado, ponderado e avaliado veze sem conta. Depois, a defesa do ambiente é a última coisa que um potencial comprador de automóvel novo vai colocar na lista de prioridades na hora da aquisição.

Mas os despachados políticos europeus são fabulosos e as suas mentes brilhantes perceberam que a pandemia lhes atapetou de passadeira vermelha o caminho para a mobilidade elétrica. Perante o nascimento de um problema social e orçamental com o avolumar de despedimentos na indústria automóvel, carregaram a bazuca e dispararam milhares de milhões de euros de subvenções e empréstimos, mas que não podem cair onde apeteça aos Governos de cada estado membro. Nada disso! Têm de ser usados para promover a luta contra as alterações climáticas e logo os franceses e os alemães aproveitaram para lançar amplos apoios á troca de carros antigos por modelos elétricos. Em França pode chegar aos 12 mil euros!! Mas para que a franja de eleitores que se está a marimbar para a defesa do ambiente não se volte contra eles, os governantes oferecem incentivos para híbridos e para carros com motores de combustão interna. Isto perante a oposição dos mais radicais defensores dos ursos polares, que só queriam apoios para carros elétricos.

Portanto, a pandemia de Covid-19 poderá ajudar a incrementar a venda de veículos elétricos, mesmo que os consumidores torçam o nariz. Mas de borla até injeção no rabo, por isso haverá pessoas a tentar aproveitar as generosas ofertas limitadas até ao final do ano.

Para a indústria automóvel fica a necessidade de mudar de paradigma, apostando mais no lucro que no volume, o que deixará algumas marcas á mercê dos “tubarões” mundiais como o grupo VW, Toyota ou o grupo PSA. Porque os políticos não vão, agora, relaxar a pressão, antes pelo contrário, e juntar à penúria multas pesadíssimas, não é opção. 

A limpeza do ambiente que a paragem da economia proporcionou, vai incentivar os demagogos e os aproveitadores das ocasiões – como os líderes da União Europeia – vão incrementar a repressão e reduzir os limites, desprezando de forma absoluta as dificuldades de uma das indústrias mais importantes no Mundo.

Empurrados para o oceano de despesas da mobilidade elétrica, nada mais resta aos construtores que tentar manter-se á tona e não espantará que comecem a nascer “joint ventures” para desenvolvimento de carros elétricos. Que terão, consoante a marca, estilo exterior e interior muito diferenciados, mas tendo a mesma base tecnológica.

Veremos, também, a indústria automóvel a tentar inverter o jogo e pedir mais e mais apoios para a venda de veículos elétricos e para construir uma rede de carregadores rápidos em toda a Europa. Por outro lado, a indústria das baterias será duramente pressionada para acelerar o desenvolvimento das baterias.

Finalmente, veremos os motores a gasóleo a definhar cada vez mais, pois o Dieselgate continua vivo, a ameaça do NOx no corpo humano é latente e os mais jovens estão convencidos que o gasóleo é uma ameaça, orientando os pais na hora da compra de carro novo. Há construtores que já não oferecem motores a gasóleo, há cada vez mais cidades a banir a circulação de automóveis a gasóleo e os preços no mercado de usados, na União Europeia, estão a cair. 

A pandemia de Covid-19, afinal não mudou muita coisa: apenas aumentou a incapacidade dos consumidores escolherem por si que carro comprar ao serem empurrados para os elétricos com cada vez mais generosos incentivos que vão, acredito, aumentar nos próximos meses.

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